ESTUDO BACTERIOLÓGICO DE RÉPTEIS EM CATIVEIRO COM PNEUMONIA OU ESTOMATITE E SUAS CORRELAÇÕES MICROBIOLÓGICAS
RESUMO
A criação de répteis como hobby é uma prática relativamente recente, mas vem crescendo de maneira vertiginosa, já sendo considerado o terceiro segmento da indústria PET, nos EUA e na Europa. No Brasil, o mercado Herpe segue esta tendência. Os répteis, porém, exigem cuidados bastante distintos daqueles destinados aos demais animais domésticos, e por isso, é fundamental buscarmos conhecimentos adequados. A natureza das condições em que são mantidos em cativeiro é essencial para manter um animal saudável, pois a maior parte dos acidentes que ocorrem com répteis cativos é resultado de habitat artificial inapropriado. Gastrenterites severas, pneumonias bacterianas e sepse constituem as principais emergências infecciosas bacterianas encontradas na rotina clínica desses animais, especialmente quando as condições de cativeiro são inadequadas. Sendo assim o objetivo desse trabalho foi verificar os tipos de bactérias existentes em pneumonias e estomatites em répteis criados em cativeiros.
Palavra – chave: Répteis, pneumonia, estomatite.
INTRODUÇÃO
A criação de répteis como hobby é uma prática relativamente recente, mas vem crescendo de maneira vertiginosa, já sendo considerado o terceiro segmento da indústria PET, nos EUA e na Europa, perdendo apenas em popularidade para cães e gatos, tendo superado inclusive as aves e peixes ornamentais. No Brasil, apesar de muito recente, o mercado Herpe vem seguindo esta tendência mundial e está crescendo muito rapidamente. Os répteis, porém, exigem cuidados bastante distintos daqueles destinados aos demais animais domésticos, e por isso, é fundamental buscarmos conhecimento adequado (1).
Os variados habitats criados para répteis em cativeiro contribuem para a alta incidência de doenças e injúrias. Freqüentemente a natureza e as condições de cativeiro e a necessidade de expô-los ao público de uma maneira educativa impõe riscos. Além do mais o confinamento cria variados graus de estresse, que freqüentemente levam a alterações comportamentais com sérias conseqüências (2).
O sucesso da manutenção de répteis em cativeiro depende da formação correta do habitat necessário para cada espécie. Quando erros de manejo causam doenças ou injúrias, os indivíduos afetados devem ser tratados efetivamente e a causa de base do problema deve ser remediada (2).
Condições no recinto podem afetar marcadamente os habitantes. Por exemplo, doenças virais, bacterianas, fúngicas ou por protozoários e metazoários originados na sujeira estão diretamente associadas com a indiferença à higiene. Uma variedade de desordens epidérmicas, respiratórias e gastrentéricas se desenvolvem em animais que normalmente residem em habitat árido, se eles forem mantidos em meio úmido. Raspas de madeiras e/ou materiais para enriquecimento do terrário podem ser tóxicos local ou sistemicamente (2).
Falta de atenção à temperatura dos répteis e às necessidades de fotoperiodicidade irão causar como resultado final inapetência, falha na reprodução e, eventualmente, morte. As necessidades dietéticas de muitas espécies de répteis são altamente especializadas e, se não forem atingidas acuradamente, irão predispor o animal a uma grande variedade de doenças metabólicas e degenerativas (3).
A natureza das condições em que os répteis são mantidos em cativeiro é essencial para se manter um animal saudável, sendo muitas doenças que acontecem em répteis cativos, se não todas, resultados de habitat artificial inapropriado (2). Por isso, quando se pensa em manter um réptil em cativeiro, faz-se necessário manter umidade, temperatura e fomites apropriados para cada espécie (4).
Gastrenterites severas, pneumonias bacterianas e sepse constituem as principais emergências infecciosas bacterianas encontradas na rotina clínica de répteis, especialmente quando as condições de cativeiro não são adequadas (5).
Como em qualquer outro animal, as bactérias podem causar doenças basicamente por dois mecanismos: invasão de tecidos ou produção de toxina. Varias bactérias patogênicas têm sido encontradas nos répteis. A maior parte delas são Gram-negativas. Como exemplo podemos citar Salmonella sp., Pseudomonas sp., Klebsiella sp., Aeromnas sp., Protteu sp., Escherichia coli, dentre outras. Grande parte dessas desenvolve os dois mecanismos de doença citados (6).
PNEUMONIA
Pneumonia é uma afecção freqüente em répteis de cativeiro, causada por diversos agentes, contudo, um grande número de casos clínicos, é predisposto por deficiências em manejo, higiene e nutrição (7).
O trato respiratório dos répteis é anatomicamente e fisiologicamente radicalmente diferente do dos mamíferos, existindo também diferenças significativas entre as classes de répteis (7). Por exemplo: em crocodilianos o sistema respiratório é bastante semelhante aos dos mamíferos, porém, permite uma armazenagem de ar bastante grande chegando a uma reserva de até 45 minutos de oxigênio; nos quelônios o sistema respiratório apresenta algumas dificuldades funcionais, decorrentes da ausência de diafragma e constituição corporal. Em situações de baixa ventilação, eles expõem e retraem cabeça, pescoço e membros para estimular movimentos respiratórios. Há alguns cágados que conseguem respirar também através da pele. Nos quelônios os pulmões situam-se logo abaixo do casco e, no caso de tartarugas marinhas, há inclusive um reforço ósseo para protegê-los da pressão de águas profundas (8). Nos lacertílios e ofídios há espécies que apresentam atrofia ou inexistência de um pulmão (geralmente o esquerdo), além de uma forma pulmonar pouco lobulada, porém, a respiração é semelhante à dos mamíferos, pois o gradil costal realiza o papel do diafragma. Porém, o pulmão das serpentes tem uma forma alongada (8).
O aparelho hiódeo é muito bem desenvolvido na maior parte dos répteis. Em serpentes, ele se estende geralmente até a décima vértebra cervical, permitindo que a língua fique extremamente móvel. Isso também permite que as serpentes respirem diretamente através de sua glote, mesmo quando estão engolindo presas (8).
Os sinais clínicos de pneumonia em répteis incluem corrimento nasal, gorgolejamento, borbulhamento, respiração com boca aberta e anorexia. São comuns infecções oculares e orais intercorrentes. O diagnóstico geralmente é baseado em citologia e culturas de aspirados traqueais. Outros testes diagnósticos úteis incluem flutuação fecal, hematologia, broncoscopia e radiografias (9).
Os principais agentes bacterianos que estão presentes em pneumonias em répteis são Escherichia coli, klebsiella sp., Pseudomonas sp., Proteus sp., Aeromonas sp., Staphylococcus sp. e Pasteurella testudinis, mas também pode-se encontrar Bacterioides, Peptostreptococcus, Fusobacterium e Clostridium, ou ainda bactérias atípicas como Mycoplasma e Chlamydia (7).
ESTOMATITE
A infecção da cavidade oral é comum em répteis, e muito animais afetados por estarão anoréxicos e debilitados, resultando em óbito, quando não tratada. Estomatites não são afecções primarias, estando geralmente relacionadas à depressão do sistema imune causada por estresse, erros de manejo (principalmente temperatura) e alimentação inadequada (7).
A anatomia do trato digestório superior dos répteis é bastante distinta entre as espécies. Os crocodilianos, entre os répteis são os únicos que possuem dentes com alvéolos. Sua língua é carnosa e pouco móvel, com uma prega na parte distal que funciona como palato. Eles não possuem glândulas salivares. Quelônios não possuem dentes, mas sim uma projeção córnea. Nos lacertílios os dentes são fundidos aos maxilares e, às vezes, aos palatinos e aos ectopterigóides. Há lagartos que apresentam dentes ligados a glândulas salivares modificadas (glândulas de veneno). A língua pode possuir muitos formatos desde curta a bifurcada, com função relacionada ao órgão de Jacobson, e até elástica como nos camaleões (8). Ofídios possuem pares de glândulas salivares labiais superiores e inferiores, e glândula sublingual. O par de glândulas salivares superior pode estar transformado em glândulas de veneno em algumas espécies. Algumas espécies de colubrídeos possuem glândulas de veneno posteriores (glândulas de Duvernoy). A língua dos ofídios é muito fina, ágil e bifurcada, tendo função sensorial, pois esta ligada ao olfato e a ao órgão de Jacobson (8).
Os sinais iniciais de estomatite em répteis incluem formações de petéquias, ptialismo e anorexia. À medida que a infecção progride, observa-se exsudato caseoso, perda dentária e osteomielite. Infecções orais constituem freqüentemente foco para infecções oculares e pneumonia intercorrentes. O diagnóstico é feito através de um exame oral completo, colhendo-se amostras para citologia, cultura bacteriana e antibiograma. As amostras de cultura mais precisas devem ser obtidas fazendo-se uma fenda pequena na gengiva e perfurando tecidos subjacentes (9).
Os agentes bacterianos mais comuns, encontrados em estomatites em répteis são Aeromonas e Pseudomonas, e não muito comum Klebsiella sp. (7). Staphylococcus sp. e Corynebacterium sp. também podem ser encontrados em estomatites (10).
O objetivo desse trabalho foi verificar os tipos de bactérias existentes em pneumonias e estomatites em répteis criados em cativeiros.
MATERIAL E MÉTODOS
Para a realização deste trabalho foram utilizados 12 répteis, sendo três jibóias (Boa constrictor constrictor), todas jovens, com idade aproximada de dois anos, cinco jabutis-piranga (Geochelone carbonaria), sendo quatro exemplares adultos, com idade aproximada de 20 a 30 anos e 1 exemplar jovem com aproximadamente cinco meses de idade, e quatro teiús (Tupinambis merianae), todos jovens, com idade aproximada de 2 a 3 anos. Todos os exemplares eram mantidos em cativeiro doméstico.
Dos exemplares de jibóia, duas eram mantidas em terrários de vidro com placa térmica para aquecimento e uma em caixa plástica sem aquecimento, destes o exemplar mantido em caixa plástica sem aquecimento apresentou sinais clínicos de pneumonia e os outros de estomatite.
Todos os exemplares de jabuti-piranga, eram mantidos em ambientes externos (quintal e varanda) sem qualquer tipo de aquecimento. Três exemplares adultos tiveram sinais clínicos de estomatite. Os outros exemplares apresentaram sinais clínicos de pneumonia, sendo que o jovem, veio a óbito durante o trabalho, porém a necropsia não foi realizada por recusa da proprietária.
Dos quatro exemplares de teiú, dois eram mantidos em terrários de vidro com pedra térmica e lâmpada de UVA e UVB, e os dois em terrários de madeira, sendo que destes, apenas um possuía aquecimento com placa térmica e lâmpada de UVA e UVB. Dos dois mantidos em terrário de vidro, um teve sinais de estomatite e o outro de pneumonia. Dos que são mantidos em terrário de madeira, o que possuía aquecimento teve sinais de estomatite e o outro de pneumonia.
Todos os exemplares foram atendidos na Clínica Veterinária Estação Zôo, em São Paulo-SP.
COLHEITA DE MATERIAL E TESTES LABORATORIAIS
Após contenção física dos animais, o material oral (em caso de suspeita de estomatite) ou nasal (suspeita de pneumonia) foi colhido com Swab estéril e acondicionado em meio de Stuart, sendo posteriormente semeados em Agar Sangue e Maconk. Para observação foi realizada coloração de Gram, sendo usado EPM MILI CITRATO para diferenciar as enterobacterias, pois este método possibilita a identificação do gênero das cepas isoladas, e possui uma boa vantagem sobre o Rugai com lisina porque os meios se encontram em tubos separados, o que evita interferências nas provas (11, 12) e CATALASE STAPHI-TEST para gram-positivas, o qual tem como base a capacidade do Staphyloccocus aureus aglutinar hemácias de carneiro, previamente sensibilizadas com hemolisina e fibrinogênio. Quando a reação de aglutinação é fortemente positiva dentro de 5 segundos no Staphy-Test R e negativa no Staphy-Test C, conclui-se que a colônia é de Staphylococcus aureus (13, 14, 15).
Todos os exames foram realizados no laboratório BADGLIAN em São Paulo-SP, pela M.V. MAYRA ANELONE PEREIRA.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 12 animais utilizados neste trabalho, cinco apresentavam sinais compatíveis com pneumonia (Quadro 1) e sete com estomatite (Quadro 2).
Quadro 1. Descrição dos sinais que embasaram a suspeita clínica de pneumonia, e resultado da cultura de secreção nasal destes animais.
| ESPÉCIE |
SINAIS CLÍNICOS |
RESULTADO |
| Boa constrictor |
Secreção nasal e anorexia. |
Proteus vulgaris |
| Geochelone carbonaria |
Atividade normal, normorexia, com dificuldade respiratória e início de secreção nasal. |
Não ocorreu crescimento bacteriano em até 48h. |
| Geochelone carbonaria |
Animal com secreção nasal, anorexia, apatia e desidratação moderada. |
Staphylococcus aureus |
| Tupinambis merianae |
Atividade normal, normorexia e com secreção nasal. |
Klebsiella sp |
| Tupinambis merianae |
Atividade normal, anorexia e secreção nasal. |
Pseudomonas aeruginosa |
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Quadro 2. Descrição dos sinais que embasaram a suspeita de estomatite, e resultado da cultura de secreção oral destes animais.
| ESPÉCIE |
SINAIS CLÍNICOS |
RESULTADO |
| Geochelone carbonaria |
Anorexia e odor forte em região oral. |
Citrobacter sp |
| Geochelone carbonaria |
Anorexia, odor forte e início de formação de placas na cavidade oral. |
Citrobacter sp |
| Geochelone carbonaria |
Anorexia, apatia, odor forte, início de formação de placas e ulcerações na cavidade oral, enoftalmia e desidratação. |
Pseudomonas aeruginosa |
| Tupinambis merianae |
Anorexia, apatia, início de formação de placas e ulcerações na cavidade oral e enoftalmia. |
Pseudomonas aeruginosa |
| Tupinambis merianae |
Anorexia e início de formação de placas na cavidade oral com secreção |
Pseudomonas aeruginosa |
| Boa constrictor |
Anorexia e início de formação de placas na cavidade oral com secreção |
Pseudômonas aeruginosa |
| Boa constrictor |
Anorexia, apatia e início de formação de placas e ulcerações na cavidade oral. |
Pseudômonas aeruginosa e Escherichia coli |
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Nas culturas de secreção nasal não foi observado predomínio de nenhuma bactéria (Figura 1), porém os resultados foram compatíveis com os apresentados por Murray (7), o qual cita todas as bactérias encontradas por este autor durante o desenvolvimento deste trabalho, entre as principais envolvidas em casos de pneumonia em répteis. Já para as culturas de secreções da cavidade oral encontrou-se predominantemente Pseudomonas aeruginosa, independente da espécie afetada (Figura 1), resultado este compatível com os apresentados por Murray (7) que cita Pseudomonas sp. e Aeromonas sp. como as principais bactérias envolvidas em casos de estomatite em répteis. Contudo, as enterobactérias isoladas nas culturas de secreção oral, realizadas por este autor, (Citrobacter sp. e E. coli) não são apresentadas nem por Murray (7), nem por Cooper & Sainsbury (10) entre as principais bactérias causadoras de estomatite.
CONCLUSÃO
O conhecimento das principais bactérias envolvidas nos casos de estomatite e pneumonia em répteis, propicia ao clínico, uma escolha inicial de um antibiótico com melhor margem de acerto, mesmo antes dos resultados de cultura e antibiograma, porém não faz com que estes exames se tornem dispensáveis, pois pode haver resistência da bactéria envolvida ao agente antibiótico escolhido. Além disso, vale ressaltar que o principal fator de desenvolvimento destas afecções em répteis é erro de manejo, seja alimentar ou de temperatura, iluminação, umidade ou higiene dos recintos. Portanto, para o tratamento adequado de pneumonias e estomatites, faz-se necessário também corrigir estas falhas, propiciando ao paciente uma melhor condição para restabelecimento da homeostase.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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4. CORBORN, J. Caring for Green Iguanas - Breeding, Feeding e Selection. United States Of America: T. F. H., 1994. 47 p.
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10. COOPER, J. E.; SAINSBURY, A. W. Espécies Exóticas. São Paulo : Manole. 167 p.
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